segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A obra de Machado de Assis

Machado de Assis, através de suas obras, mostrava de forma sutil sua visão de mundo. Pode-se dizer que passou do romantismo ao realismo, apresentando em suas obras, temas sob uma ótica crítica e irônica, característica do autor. Machado possuía uma originalidade, buscando o interior dos personagens e do homem diante da sociedade. Além disso, uma das maiores características de suas obras era a forma contraditória de apreensão do mundo. Machado, em geral, apanhava o fato em suas versões antagônicas, mostrando uma forma superior e mais completa de ver as coisas. Pode-se dizer que Machado tinha os olhos voltados para as contradições do mundo.
Podemos perceber também, através de suas obras, traços que revelam a visão do autor quanto determinada situação. Machado é constantemente seduzido pelo impulso de falar sobre a própria obra que está escrevendo, isto é, faz metalinguagem, comentando os capítulos, as frases. Uma das características mais atraentes e refinadas de Machado de Assis é sua ironia, uma ironia que, embora chegue ao humor em certas situações, tem geralmente uma sutileza que só a faz perceptível a leitores de sensibilidade a textos de alta qualidade. Essa ironia é a arma da crítica machadiana dos comportamentos, dos costumes, das estruturas sociais. Na representação dos comportamentos humanos, a ironia de Machado de Assis se associa àquilo que é classificado como o seu grande poder analista da alma humana.

  Aspectos psicológicos:  Machado de Assis, ao analisar psicologicamente as personagens, entra na alma de cada um deles, trazendo todos os defeitos da conduta humana (egoísmo, luxúria, vaidade, etc).As atitudes boas e honestas, no fundo, nada mais são do que uma máscara que esconde as verdadeiras intenções das personagens (orgulho, cobiça, etc), revelando toda a hipocrisia que existe nos seres humanos.
      Machado e as mulheres: Suas personagens femininas são representantes da burguesia, em narrativas que se passam no final do século XIX ao XX. No período realista de Machado são os personagens masculinos que narram a maioria das histórias mostrando seu ponto de vista sobre o universo feminino. Ele representa mulheres inteligentes, doces, sonhadoras, ora ardilosas, ora inocentes. O universo de Machado possui muitos tipos de mulheres, todas elas se envolvem em dilemas de amor,  casamento, ciúme, sonho, fantasia, desilusão,  desenlace e infidelidade.
        Com o advento dos “novos tempos”, os quais são marcados pelas mudanças de caráter político, social e econômico, a mulher até então presa ao ideário da família patriarcal alcança certas liberdades e ocupa novos espaços. Porém, ao mesmo tempo em que ganha maior liberdade passa a desempenhar novas funções dentro do âmbito das vivências domésticas. Agora, a mulher tem que se ocupar do lar, dos filhos e do marido e ainda ser sua companheira na vida social.

Algumas personagens femininas das obras de Machado:
  • Lívia, de Ressurreição.
  • Guiomar, de A mão e a luva.
  • Helena, de Helena.
  • Iaiá Garcia, da obra de mesmo nome.
  • Virgília e Marcela de Memórias Póstumas de Brás Cubas
  • Sofia, de Quincas Borba.
  • Capitolina, de Dom Casmurro.
  • Flora, de Esaú e Jacó.
  • Fidélia e Carmo, de Memorial de Aires.

As fases de Machado de Assis


Os contos de Machado de Assis foram, em sua grande maioria, publicados incialmente em jornais e revistas de moda e de literatura. Essas revistas e jornais figuram, portanto, como os maiores representantes do mercado cultural que promoveu  a divulgação da maioria dos contos machadianos em suas versões iniciais. Podemos ver que correspondem pela maior parte de sua produção, 163 contos ao todo.
                Machado de Assis apresenta uma divisão de suas obras em duas fases :

1)      Na primeira fase que é conhecida também como fase romântica, seus personagens possuem características românticas, crenças nos valores da época, sendo o amor e os relacionamentos amorosos os principais temas neste período. Podemos destacar para esta primeira fase as seguintes obras: seu primeiro livro chamado Ressureição publicado em 1872, A Mão e a Luva em 1874, Helena em 1876 e Iaiá Garcia em 1878.

2)      Na segunda fase considerada como realista, Machado abre espaços para a ánalise dos valores sociais e questões psicológicas dos personagens.  Nesta fase Machado descobriu enfim sua vocação verdadeira que era contar a essência do homem, em sua existência precária, destacando suas vontades, defeitos e qualidades. Podemos destacar algumas obras como: Memórias Póstumas de Brás Cubas publicado em 1881, Quincas Borva em 1892, Dom Casmurro em 1900 e Memorial de Aires em 1908.



                Machado de Assis também foi um dos maiores cronistas de sua época, e suas crônicas são excelente fonte histórica. Nos seus textos é possível descobrir o Brasil da segunda metade do século XIX: os costumes, o que faziam os governantes, como era a cidade do Rio de Janeiro.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Análises 2º trimestre: "O ex-mágico da Taberna Minhota", "O Pirotécnico Zacarias", "Bárbara", "Teléco, o Coelinho", "Ofélia, meu Cachimbo e o Mar" e "Os Dragões"



O Ex-mágico da Taberna Minhota

  O personagem, protagonista e narrador do conto descreve-se como uma pessoa que percebe sua existência, já em idade madura, quando se olha no espelho de uma taberna. Ele começa, então, a fazer mágicas involuntariamente, ou seja, objetos e seres começam a aparecer retirados de seus bolsos. Chapéus ou por simples movimentos de suas mãos. As mágicas divertiam o público, contudo seu comportamento sempre foi o de uma pessoa completamente entediada com o que ocorria à sua volta.
 Com o passar do tempo, o tédio cede lugar a uma crescente irritação por causa das mágicas que aconteciam o tempo todo, independentemente de sua vontade. Por isso, tenta se matar diversas vezes, mas a cada tentativa, acontece alguma mágica que impossibilita o suicídio. Já desesperado, o protagonista só consegue encontrar uma espécie de morte quando se torna funcionário público.

No final do conto, o ex-mágico chega a sentir saudades de sua antiga condição e se sente arrependido por não ter criado "todo um mundo mágico" quando podia. 

O Pirotécnico Zacarias


O conto O Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião, retrata o fim de um homem que era excluído socialmente. Ao ser atropelado por um grupo de seis jovens bêbados, Zacarias reflete sobre a sua vida e onde ele será enterrado. Tendo em vista que os adolescentes iriam atirar-lhe em um precipício, interviu na discussão dos jovens. Após o tombo e o desmaio de um dos garotos e com os argumentos de Zacarias, ambos seguem com a farra, abandonado o garoto desmaiado e se divertindo-se no carro. Embora “estivesse morto", se divertiu com os seus novos amigos até que eles o entregassem ao cemitério.

Os textos de Murilo Rubião retratam histórias e personagens que se perpetuam hoje. No conto de Zacarias, é possível dizer que ele “aproveitou a sua plenitude na morte”. Como o próprio personagem se questionava, “só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante?”

Bárbara


Em “Bárbara”, Murilo Rubião narra a história da protagonista de mesmo nome: uma mulher que está sempre insatisfeita e começa a fazer pedidos cada vez mais absurdos para seu marido, o narrador da história. Bárbara se tornava cada vez mais insaciável e passa a engordar, contrastando com a magreza de seu bebê, por quem não tem nenhum apreço.
O fato do marido realizar todas as vontades absurdas de Barbara só fazem seus desejos aumentarem, chegando ao ponto dela desejar uma árvore do jardim de um vizinho, o que obriga seu marido a comprar a casa ao lado e até mesmo um navio de cruzeiro para morar, algo que rapidamente é providenciado para ela.
Ao final da narrativa, Bárbara está olhando para o céu. Ao perceber que os olhos da mulher estavam voltados para a lua, o marido desespera-se imaginando que este será seu próximo pedido. A surpresa que encerra o conto, porém, é o último desejo da mulher: Não a lua, mas apenas uma minúscula estrela. O marido respirou aliviado. 

Teléco, o Coelinho


Esse conto é sobre um colecionador de selos. Quando estava na praia, olhando para o mar, conheceu um coelho chamado Teleco, que podia se transformar em outros animais. Levou-o para sua casa e a partir daí tornaram-se grandes amigos. A princípio, Teleco se transformava para ajudar os outros e brincar com as crianças.
Um dia, quando o narrador chega em casa do trabalho, Teleco, agora como canguru, está com uma mulher, Teresa, que moraria com eles. No entanto, agora ele afirmava ser homem, cujo nome era Antônio Barbosa. Usava roupas e um óculos para que realmente parecesse um homem.
O narrador, porém, se apaixona por Teresa, e ao ver seu desprezo por ele, e o jeito como Teleco está agindo, usando suas coisas e mostrando-se muito diferente de como era, manda-os sair de sua casa.
Passado algum tempo, em uma noite, ele está colando selos, quando entra pela janela um cachorro. Era Teleco.  Perguntou por Teresa, mas o cachorro só dava respostas confusas, sem sentido, transformando-se em vários animais. Estava doente, com tosse e não conseguia se alimentar direito.
O narrador cuidava dele e, na última noite, Teleco estremecia de leve e, aos poucos, foi se acalmando. Cansado, o narrador adormece, e ao acordar percebe que quem estava no seu colo agora era um bebê, morto.

- Esse conto é narrado em primeira pessoa do singular, ou seja, o narrador faz parte da narrativa, mesmo não sendo o personagem principal.
- A narrativa nos faz perceber as repentinas transformações do personagem, uma tentativa de adaptação a um mundo onde não há mais valores como a inocência e a pureza.
- O tema é a animalização da humanidade, pois o homem, muitas vezes, está deixando de ser um homem devido as suas atitudes. E Murilo Rubião demonstra isso através das metamorfoses de Teleco, que deseja tanto se tornar homem, que chega a acreditar que na pele de um canguru já pode ser considerado um homem, passando assim, a agir como um. Assim, podemos perceber, que o inocente e puro coelho logo é transformado em um ser muito diferente do que era, passando a ter atitudes que os homens tem.
- Não é possível sabermos o que Teleco sente, mas isso é revelado através de suas metamorfoses, das quais o leitor tira suas próprias conclusões.
- Murilo Rubião usa um sentido bíblico em sua narrativa, mostrando que, ao sofrer as constantes transformações, Teleco perde o controle de si mesmo, e acaba descobrindo o quão cruel o ser humano é e que nada pode fazer para mudar isso.

Ofélia, meu Cachimbo e o Mar


Ofélia, meu cachimbo e o mar

Gosto de conversar com Ofélia na varanda após o jantar, cachimbo entre os dentes e o oceano, enegrecido pela noite, estendendo-se à nossa frente.
Conto-lhe episódios da crônica de minha família ou do mar, esquecendo-me, quase sempre, de que ela só aprecia histórias de caçadas. Quando me lembro disso, lamento a condição de Ofélia, descendente de uma nobre estirpe de caçadores. Mas o que posso fazer, além de lastimar? Não sinto atração por esse esporte e entre os meus antepassados não sei de algum que tenha levantado a arma para exterminar animais que não fossem do gênero humano.
Se noto que a conversa vai morrendo, por culpa de Ofélia que cerrou os olhos, para melhor sonhar com selvas e tiros, calo-me por instantes e me ponho a ouvir vozes soturnas que
vêm do mar. Ouço as sirenas, que cortam a noite como gemidos: de homens que se perderam em águas longínquas.
Talvez seja mera impressão minha. Os sons emitidos pelas naves, procurando ou se afastando do porto, podem simbolizar, para outros, coisa bem diferente. A Pedro, um velho marinheiro sardento, eles lembram apenas as tabernas inglesas.
Não sei de onde tirou tão estranha ligação, pois nunca toma o trabalho de explicá-la. Contenta-se, quando instado a esclarecer o motivo, em levar os olhos em direção ao oceano, como se quisesse enxergar algo encoberto pelas imensas moles d'água.
O botequineiro, que ostenta no corpo dezenas de tatuagens – todas alusivas a amores passados – diz que "são artes de rabo de saia". Discordo: marinheiro velho lembra-se de mulher somente para ter saudades do mar.
II
Seja qual for a razão, o meu amor pelas mulheres veio do mar. Não que eu seja ou tenha sido marinheiro. Nem o menos nasci numa cidade litorânea. Sou de um vilarejo de Minas, agoniado nas fraldas da Mantiqueira. Nas minhas veias, porém, corre o melhor sangue de uma geração de valentes marujos.
Na minha infância, enquanto os companheiros subiam nas árvores, ou caçavam passarinhos, eu me debruçava na banheira e me divertia fazendo navegar pequenos barcos de papel.
Com os anos, as minúsculas embarcações passaram a não me entreter mais, nem me contentava em imaginar, de longe, a beleza dos veleiros singrando verdes águas.
Esperei que meu pai fizesse a sua última viagem que, aliás, por pouco não foi marítima – morreu engasgado com uma espinha de peixe – para ir morar no litoral.
III
A desilusão me aguardava neste porto. Logo ao desembarcar, fraturei um dos pés e fiquei inutilizado para os trabalhos marítimos.
Após um período de denso desespero, consolei-me da frustração. Distraía-me passeando pelas praias, sempre apoiado em muletas. Conversava com pescadores ou simplesmente observava os navios, a me sugerirem longos cruzeiros por oceanos infestados de piratas malaios, parecidos com aqueles que antigamente apareciam bem nítidos na minha imaginação. E pouco faltou para convencer-me de ter sido em outros tempos experimentado marinheiro.
Despreocupado, a minha vida escorregava mansamente, sem que me aborrecesse o tédio da inatividade. Quando acabou o dinheiro que trouxera de Minas, pensei em procurar emprego. Mas o que poderia fazer um homem aleijado, com a vocação de navegante, depois que lhe roubaram o mar?
IV
Do meu bisavô também roubaram o mar.
José Henrique era capitão de navio negreiro. Estatura gigantesca, ombros largos, desde menino navegava em veleiros que iam à cata de negros para as lavouras do país.
Fisionomia dura, barba negra, a boca sem os dentes da frente, compunham a sua figura bastante temida pelos marujos e escravos.
Para provar a força e a coragem do meu bisavô, contavam que, certa vez, quando uma tremenda tempestade ameaçava afundar o seu barco e de terem vários marinheiros caído no mar, tentando baixar as velas, ele subiu sozinho, mastro acima, e as arreou. A façanha lhe custou boa parte da dentadura, pois teve que se agarrar, com as mãos e os dentes, a panos e cordas, para evitar uma desastrosa queda.
Com a Abolição da Escravatura, José Henrique retirou-se para uma fazenda, onde passava os dias estirado numa rede.
Em alguns momentos, no embalo da nostalgia, decidia-se a retornar ao comando de uma nave qualquer. Agitado, compulsava mapas, ou pegava de uma velha roda de leme e ia para o alto de um morro para simular ordens de comando.
Depois, os altos cumes da Mantiqueira, escondendo-lhe o oceano, a certeza de que jamais poderia comandar navios negreiros, faziam com que ele retornasse à rede.
Raramente de bom humor, apenas sentia-se feliz quando, de porta-voz em punho, comandava subordinados imaginários.
Já o meu avô, que nascera em Minas, contentava-se em fazer barcos de madeira e colecionar estampas de navios. Desculpava-se freqüentemente de não ter seguido a vocação ancestral, repetindo o velho José Henrique:
– O mar? Só em navio negreiro!
Talvez desculpasse o seu horror por qualquer espécie de água: em seus oitenta vigorosos anos de vida conheceu apenas a que o padre lhe ministrara na cerimônia do batismo.
Ante o exemplo paterno, meu pai jamais externou o desejo de ser navegador, nem tampouco abusou dos banhos.
VI
Todavia, os fracassos navais de minha família não evitaram que eu viesse parar neste porto e, um dia, chegasse a passar fome.
Não sofri a fome por muito tempo. Logo conheci Alzira, uma viúva, cujo marido se enriquecera no contrabando de bebidas. E suicidara-se, por motivos que a minha falecida esposa nunca me revelou. Sim, a minha falecida esposa, que desposei alguns dias depois de nos conhecermos.
Devo esclarecer que não a pedi em casamento por causa de sua fortuna e ainda menos pela sua beleza um tanto equívoca: tinha a cara de tainha e o odor das lagostas. Foi pelo seu odor e não pelo rosto que a escolhi para minha mulher.
O nosso casamento durou pouco mais de um ano e terminou com a morte de Alzira, motivada por umas sardinhas deterioradas que ela comera.
VII
Ofélia, que não tolera o meu silêncio, interrompeu agora os meus pensamentos com um latido forte. Olho para ela e, instintivamente, vou iniciar uma história relacionada com o mar e me detenho ao perceber o seu olhar desaprovador. Sei que Ofélia está à espera de uma das minhas mentiras habituais. Revolto-me com a ingratidão dela: se não a abrigasse em casa, o seu destino seria o mesmo dos cães vadios.
– Não, Ofélia. Você poderia ser menos intolerante com as minhas fantasias. Aqui, neste lugarejo, espremido entre montanhas, sem divertimentos, não apreciando caçadas e tendo herdado a vocação do meu bisavô marinheiro...
Percebo que não fui muito convincente e insisto com mais vigor:
– Sim, ele existiu, é verdade!
Vendo que ela não presta mais atenção no que estou dizendo, desisto de convencê-la:
– Perdoa-me, Ofélia, não sei por que procedo assim. Mas gostaria tanto se aquele meu  bisavô marinheiro tivesse existido!

Análise do conto

Personagens Principais:
- Ofélia: A cadela
- Narrador: Conta em 1ª pessoa sob a forma de diálogo

Espaço:
O conto se passa na varanda do narrador, contudo o mesmo começa a contar sobre as memórias de seus antepassados passando por períodos da história do Brasil como o dos tráficos negreiros e após a abolição da escravatura.

Tempo:
A parte cronológica do conto se passa no presente enquanto o narrador fala com a cadela Ofélia. Apartir disso vem a parte psicológica onde o narrador começa a devanear sobre o perfil de pessoas conhecidas, história de seus antepassados, que no fim vamos descobrir que não foram verídicas.

Enredo:

O conto é sobre um homem que mora entre montanhas longe do mar falando sobre histórias de seus antepassados para sua cachorra, que gosta das que tem algum tipo de caça (provavelmente por influência de sua raça). Após notar que Ofélia não dava muita atenção ao inicio da história que tinha começado relembra das histórias as quais tinham alguma relação com o mar. Justificando seu fascínio pelo mesmo. Depois de histórias passando por períodos históricos do Brasil, volta a realidade com os protestos da cachorra ao seu silencio perturbador, se irritando com a mesma pela a falta de credibilidade em suas histórias, acaba desistindo e se desculpando com ela assumindo que queria muito que suas histórias fossem verdadeiras.

Os Dragões

“Os Dragões” de Murilo Rubião é um conto que mostra que as vezes não importa o quanto você tente ajudar uma pessoa, ela vai acabar escolhendo o próprio caminho. O conto começa com a aparição de alguns dragões em uma vila que precisa descobrir o que poderia fazer com eles. Primeiramente, o padre os descreve como crias do demônio que não deveriam ser ajudadas e sim trancadas em um local, uma só pessoa é contrária a ideia e diz que eles deveriam educar os dragões. Porém, como era a recomendação de um padre contra uma pessoa do povo, os dragões passaram um tempo trancados dentro de um casebre, logo após alguns dias as pessoas reconsideram e pedem para o homem que havia dito que deveriam treinar os dragões que os educasse.
Infelizmente, ele não tem muita sorte e a maioria dos dragões morre de embriaguez ou fome. Entre os dragões sobreviventes, o primeiro fez uma mulher cometer o adultério e a fugir com ele, poucos dias depois o marido da mulher o matar. Já o último consegue aprender algumas coisas e vive até a fase adulta, assim que aprende a vomitar fogo, seu caminho descarrilha e ele perde o senso de certo e errado.

Quando um circo vem ao povoado o dragão mostra que é muito mais interessante do que as atrações trazidas pelo circo e recebe muitas ofertas para trabalhar. Ele nega todas as ofertas e no dia seguinte desaparece misteriosamente. Nunca mais viram-se os dragões, restaram apenas as lembranças. 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Análises finais: A Dama do Bar Nevada, Não Chore Papai, Café Paris e Majestic Hotel

A Dama do Bar Nevada
    
            “A Dama do Bar Nevada” fala sobre um homem jovem, sozinho, que não tinha mais nada. Não tinha dinheiro e passava fome. O conto retrata o dia em que esse homem vai ao Bar Nevada comer um sanduíche. Ele está sozinho em uma mesa e vê chegar uma senhora. Uma senhora maltratada pelo tempo, mas sua beleza ainda permanecia de certa forma. Usava roupas modernas, de cores afrontosas, uma maquiagem grossa e um perfume nauseante. Não havia mais lugares no bar, então, sentou-se com ele.
            Não tinha dinheiro suficiente para pagar a sua comida, então, a senhora ofereceu-lhe dinheiro e o convidou para ficar ali com ela e tomar um chá. Os dois conversaram e, percebendo a situação em que ele estava, ela queria ajuda-lo. Porém, não tinha como lhe arranjar um emprego. Vivia com uma pequena pensão e apenas umas joias e um dinheirinho no banco.
            Ele percebeu, o quanto ela era sozinha. Já tinha perdido seu marido há alguns anos e nunca teve a oportunidade de ter outra pessoa. Ela afirmava que os dois precisavam de ajuda, e assim eles poderiam fazer isso um pelo outro.
            Esse conto, narrado na terceira pessoa, é um retrato das realidades experimentadas pelos habitantes da cidade. É uma cena urbana, do cotidiano. Sérgio Faraco dá uma maior importância à dramaticidade e à expressividade, buscado no interior dos personagens, mostrando o quanto são sozinhos e angustiados.

            Faraco explora os contatos, a fugacidade dos encontros, em que a sexualidade é um tema recorrente, fugindo das regras pré-estabelecidas. No conto, ele mostra que em meio ao ambiente em que vivemos, em que muitas vezes nos sentimos sufocados, podemos nos sentir amados e não tão sozinhos. “A Dama do Bar Nevada” apresenta uma busca nesse sentido, em que se esconde uma vontade de estar com alguém, de partilhar relações com alguém.

Não Chore Papai

Uma das características mais marcantes de Sérgio Faraco é a aproximação de seus contos com a realidade cotidiana, algo que não é diferente em "Não Chore Papai". O conto, presente no livro Dançar Tango em Porto Alegre, narra em 1ª pessoa uma situação vivenciada por um pai e um filho em um contexto relativamente pobre e dramático.                     

Um dia, durante um passeio no rio, o filho presencia um ataque de raiva do pai. Transtornado, o homem  quebra a bicicleta do filho, que foi um presente de sua tia Gioconda. Ao final do conto, a mãe do menino o aconselha a pedir desculpas para seu pai, mesmo que o garoto não faça ideia do motivo de tanta raiva. Ao ir ao encontro de seu pai, ele percebe que o homem chora. 


Café Paris

O conto “Café Paris” de Sergio Faraco retrata o antigo amor entre um casal em Porto Alegre. Com linguagem simples e coloquial, os dois personagens relembram do amor intenso que tiveram e a filha dessa relação. Ao se encontrarem, encaminharam-se ao Café Paris; lugar onde conversam e relembram seu passado. 
Mesmo deixando transparecer que ainda existe algo entre eles, o casal não permite que seus sentimentos venham à tona, afinal o tempo em que estiveram juntos já havia acabado. Enquanto o ex-marido tenta relembrar a sua vivência jovem, acaba se excedendo na bebida e tornando o encontro divertido e atrapalhado. 


Majestic Hotel

Personagem principal: É o narrador, conta sua história do ponto de vista dele ainda criança. Tornando algumas de suas ações, assim como a de muitas crianças, previsíveis é então um personagem plano. Tem uma relação muito forte com a mãe, que é apresentada em alguns trechos do conto, como o ciumes e preocupação dele ao ver um homem olhando para ela, e o medo de que a mãe o havia abandonado no hotel quando a mesma foi buscar a comida do narrador.
Tempo: O começo é o presente quando o narrador ao ver um antigo brinquedo recorda um passa de cinco anos atrás e da continuidade da ao episodio em que a mãe lhe entrega o pequeno soldadinho.
Espaço: O conto acontece em um hotel que tem o nome de Majestic hotel que tem sua localização em Porto Alegre.
Ação: O narrado que é uma criança ao ficar preocupada com a mãe tenta encontra-la pois tem medo de que ela o abandone, mas a mãe volta e lhe da de presente um soldadinho de chumbo.
Plano: Não muito convencional ja que apresenta uma passagem que mostra as lembranças de uma criança que era muito apegada a mãe e também muito ingenua.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Reportagem Estadão: UFRGS inclui disco na lista de leituras obrigatórias para o vestibular

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) incluiu pela primeira vez um disco na lista de leituras obrigatórias para o vestibular. Tropicalia ou panis et circensis, de Cateano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes e outros figura ao lado de obras de Lídia Jorge, Tabajara Ruas, Sergio Faraco, Jorge Amado e Nelson Rodrigues, entre outras. 
O álbum é de 1968 e mistura rock, marchinhas e orquestrações. Além de Cateano, Gil e dos Mutantes, conta com participações de Tom Zé, Nara Leão, Rita Lee e Gal Costa. É considerado o disco que lançou as bases para o tropicalismo.
A lista completa de leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS está no site da universidade: http://www.ufrgs.br/coperse/concurso-vestibular/vestibular-2015/leituras-obrigatorias

Reportagem retirada do site: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,ufrgs-inclui-disco-na-lista-de-leituras-obrigatorias-para-o-vestibular,1147403,0.htm

Tarefa 4: análise do conto "O Cobrador" de Rubem Fonseca




NA PORTA da rua uma dentadura grande, embaixo escrito Dr. Carvalho, Dentista. Na sala de espera vazia uma placa, Espere o Doutor, ele está atendendo um cliente. Esperei meia hora, o dente doendo, a porta abriu e surgiu uma mulher acompanhada de um sujeito grande, uns quarenta anos, de jaleco branco.

Entrei no gabinete, sentei na cadeira, o dentista botou um guardanapo de papel no meu pescoço. Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muita. Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado.

Só rindo. Esses caras são engraçados.

Vou ter que arrancar, ele disse, o senhor já tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder todos os outros, inclusive estes aqui — e deu uma pancada estridente nos meus dentes da frente.

Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê?, disse com pouco caso.

São quatrocentos cruzeiros.

Só rindo. Não tem não, meu chapa, eu disse.

Não tem não o quê?

Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta.

Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogadas, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito. Abri o blusão, tirei o 38, e perguntei com tanta raiva que uma gota de meu cuspe bateu na cara dele, -- que tal enfiar isso no teu cu? Ele ficou branco, recuou. Apontando o revólver para o peito dele comecei a aliviar o meu coração: tirei as gavetas dos armários, joguei tudo no chão, chutei os vidrinhos todos como se fossem balas, eles pipocavam e explodiam na parede. Ar­rebentar os cuspidores e motores foi mais difícil, cheguei a machucar as mãos e os pés. O dentista me olhava, várias vezes deve ter pensado em pular em cima de mim, eu queria muito que ele fizesse isso para dar um tiro naquela barriga grande cheia de merda.

Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro!

Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta.

* * *
A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo. Um cego pede esmolas sacudindo uma cuia de alumínio com moedas. Dou um pontapé na cuia dele, o barulhinho das moedas me irrita. Rua Marechal Floriano, casa de armas, farmácia, banco, china, retratista, Light, vacina, médico, Ducal, gente aos montes. De manhã não se consegue andar na direção da Central, a multidão vem rolando como uma enorme lagarta ocupando toda a calçada.

* * *
Me irritam esses sujeitos de Mercedes. A buzina do carro também me aporrinha. Ontem de noite eu fui ver o cara que tinha uma Magnum com silenciador para vender na Cruzada, e quando atravessava a rua um sujeito que tinha ido jogar tênis num daqueles clubes bacanas que tem por ali tocou a buzina. Eu vinha distraído pois estava pensando na Magnum, quando a buzina tocou. Vi que o carro vinha devagar e fiquei parado na frente.

Como é?, ele gritou.

Era de noite e não tinha ninguém perto. Ele estava vestido de branco. Saquei o 38 e atirei no pára-brisa, mais para estrunchar o vidro do que para pegar o sujeito. Ele arrancou com o carro, para me pegar ou fugir, ou as duas coisas. Pulei pro lado, o carro passou, os pneus sibilando no asfalto. Parou logo adiante. Fui até lá. O sujeito estava deitado com a cabeça para trás, a cara e o peito cobertos por milhares de pequeninos estilhaços de vidro. Sangrava muito de um ferimento feio no pescoço e a roupa branca dele já estava toda vermelha.

Girou a cabeça que estava encostada no banco, olhos muito arregalados, pretos, e o branco em volta era azulado leitoso, como uma jabuticaba por dentro. E porque o branco dos olhos dele era azulado eu disse — você vai morrer, ô cara, quer que eu te dê o tiro de misericórdia?

Não, não, ele disse com esforço, por favor.

Vi da janela de um edifício um sujeito me observando. Se escondeu quando olhei. Devia ter ligado para a polícia.

Saí andando calmamente, voltei para a Cruzada. Tinha sido muito bom estraçalhar o pára-brisa do Mercedes. Devia ter dado um tiro na capota e um tiro em cada porta, o lanterneiro ia ter que rebolar.

* * *
O cara da Magnum já tinha voltado. Cadê as trinta mi­lhas? Põe aqui nesta mãozinha que nunca viu palmatória, ele disse. A mão dele era branca, lisinha, mas a minha estava cheia de cicatrizes, meu corpo todo tem cicatrizes, até meu pau está cheio de cicatrizes.

Também quero comprar um rádio, eu disse pro  muambeiro. Enquanto ele ia buscar o rádio eu examinei melhor a Magnum. Azeitadinha, e também carregada. Com o silenciador parecia um canhão.

O muambeiro voltou carregando um rádio de pilha.

É japonês, ele disse.

Liga para eu ouvir o som.

Ele ligou.

Mais alto, eu pedi.

Ele aumentou o volume.

Puf. Acho que ele morreu logo no primeiro tiro. Dei mais dois tiros só para ouvir puf, puf.

* * *
Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol.

Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio. Quando minha cólera está diminuindo e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta. Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loura reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles dentes branquinhos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha. Agora está ali, sorrindo, e logo beija a loura na boca. Não perde por esperar.

Meu arsenal está quase completo: tenho a Magnum com silenciador, um Colt Cobra 38, duas navalhas, uma carabina 12, um Taurus 38 capenga, um punhal e um facão. Com o facão vou cortar a cabeça de alguém num golpe só. Vi no cinema, num desses países asiáticos, ainda no tempo dos ingleses­ um ritual que consistia em cortar a cabeça de um animal, creio que um búfalo, num golpe único. Os oficiais ingleses presidiam a cerimônia com um ar de enfado, mas os decapitadores eram verdadeiros artistas. Um golpe seco e a cabeça do animal rolava, o sangue esguichando.

* * *
Na casa de uma mulher que me apanhou na rua. Coroa, diz que estuda no colégio noturno. Já passei por isso, meu colégio foi o mais noturno de todos os colégios noturnos do mundo, tão ruim que já não existe mais, foi demolido. Até a rua onde ele ficava foi demolida. Ela pergunta o que eu faço e digo que sou poeta, o que é rigorosamente verdade. Ela me pede que recite um poema meu. Eis: Os ricos gostam de dormir tarde/ apenas porque sabem que a corja/ tem que dormir cedo para trabalhar de manhã/ Essa é mais uma chance que eles/ têm de ser diferentes:/ parasitar,/ desprezar os que suam para ganhar a comida,/ dormir até tarde,/ tarde/ um dia/ ainda bem,/ demais./

Ela corta perguntando se gosto de cinema. E o poema? Ela não entende. Continuo: Sabia sambar e cair na paixão/ e rolar pelo chão/ apenas por pouco tempo./ Do suor do seu rosto nada fora construído./ Queria morrer com ela,/ mas isso foi outro dia,/ ainda outro dia./ No cinema Íris, na rua da Carioca/ o Fantasma da Ópera/ Um sujeito de preto,/ pasta preta, o rosto escondido,/ na mão um lenço branco imaculado,/ tocava punheta nos espectadores;/ na mesma época, em Copacabana,/ um outro/ que nem apelido tinha,/ bebia o mijo dos mictórios dos cinemas/ e o rosto dele era verde e inesquecível./ A História é feita de gente morta/ e o futuro de gente que vai morrer./ Você pensa que ela vai sofrer?/ Ela é forte; resistirá./ Resistiria também; se­ fosse fraca./ Agora você, não sei./ Você fingiu tanto tempo, deu socos e gritos, embusteou/ Você está cansado,/ você. acabou,/ não sei o que te mantém vivo./

Ela não entendia de poesia. Estava solo comigo e que­ria fingir indiferença, dava bocejos exasperados. A farsanteza das mulheres.

Tenho medo de você, ela acabou confessando.

Essa fodida não me deve nada, pensei, mora com sacrifício num quarto e sala, os olhos dela já estão empapuçados de beber porcarias e ler a vida das grã-finas na revista Vogue.

Quer que te mate?, perguntei enquanto bebíamos uísque ordinário.

Quero que você me foda, ela riu ansiosa, na dúvida. Acabar com ela? Eu nunca havia esganado ninguém com as próprias mãos. Não tem muito estilo, nem drama, esga­nar-se alguém, parece briga de rua. Mesmo assim eu tinha vontade de esganar alguém, mas não uma infeliz daquelas. Para um zé-ninguém, só tiro na nuca?

Tenho pensado nisso, ultimamente. Ela tinha tirado a roupa: peitos murchos e chatos, os bicos passas gigantes que alguém tinha pisado; coxas flácidas com nódulos de celulite, gelatina estragada com pedaços de fruta podre.

Estou toda arrepiada, ela disse.

Deitei sobre ela. Me agarrou pelo pescoço, sua boca e língua na minha boca, uma vagina viscosa, quente e olorosa.

Fodemos.

Ela agora está dormindo.

Sou justo.

* * *
Leio os jornais. A morte do muambeiro da Cruzada nem foi noticiada. O bacana do Mercedes com roupa de tenista morreu no Miguel Couto e os jornais dizem que foi assaltado pelo bandido Boca Larga. Só rindo.

Faço um poema denominado Infância ou Novos Cheiros de Buceta com U: Eis-me de novo/ ouvindo os Beatles/ na Rádio Mundial/ às nove horas da noite/ num quarto/ que poderia ser/ e era/ de um santo mortificado/ Não havia pecado/ e não sei por que me lepravam/ por ser inocente/ ou burro/ De qualquer forma/ o chão estava sempre ali/ para fazer mergulhos./ Quando não se tem dinheiro/ é bom ter músculos/ e ódio./

Leio os jornais para saber o que eles estão comendo, bebendo e fazendo. Quero viver muito para ter tempo de matar todos eles.

* * *
Da rua vejo a festa na Vieira Souto, as mulheres de vestido longo, os homens de roupas negras. Ando lentamente, de um lado para o outro na calçada, não quero despertar suspeitas e o facão por dentro da calça, amarrado na perna, não me deixa andar direito. Pareço um aleijado, me sinto um aleijado. Um casal de meia-idade passa por mim e me olha com pena; eu também sinto pena de mim, manco e sinto dor na perna.

Da calçada vejo os garçons servindo champanha francesa. Essa gente gosta de champanha francesa, vestidos franceses, língua francesa.

Estava ali desde as nove horas, quando passara em frente, todo municiado, entregue à sorte e ao azar, e a festa surgira.

As vagas em frente ao apartamento foram logo ocupa­das e os carros dos visitantes passaram a estacionar nas es­curas ruas laterais. Um deles me interessou muito, um carro vermelho e nele um homem e uma mulher, jovens e elegantes. Caminharam para o edifício sem trocar uma palavra, ele ajeitando a gravata borboleta e ela o vestido e o cabelo. Prepararam-se para uma entrada triunfal mas da calçada vejo que a chegada deles foi, como a dos outros, recebida com desinteresse. As pessoas se enfeitam no cabeleireiro, no costureiro, no massagista e só o espelho lhes dá, nas festas, a atenção que esperam. Vi a mulher no seu vestido azul esvoaçante e murmurei — vou te dar a atenção que você merece, não foi à toa que você vestiu a sua melhor calcinha e foi tantas vezes à costureira e passou tantos cremes na pele e botou perfume tão caro.

Foram os últimos a sair. Não andavam com a mesma firmeza e discutiam irritados, vozes pastosas, enroladas.

Cheguei perto deles na hora em que o homem abria a porta do carro. Eu vinha mancando e ele apenas me deu um olhar de avaliação rápido e viu um aleijado inofensivo de baixo preço.

Encostei o revólver nas costas dele.

Faça o que mando senão mato os dois, eu disse.

Para entrar de perna dura no estreito banquinho de trás não foi fácil. Fiquei meio deitado, o revólver apontado para a cabeça dele. Mandei que seguisse para a Barra da Tijuca. Tirava o facão de dentro da perna quando ele disse, leva o dinheiro e o carro e deixa a gente aqui. Estávamos na frente do Hotel Nacional. Só rindo. Ele já estava sóbrio e queria tomar um último uisquinho enquanto dava queixa à polícia pelo telefone. Ah, certas pessoas pensam que a vida é uma festa. Seguimos pelo Recreio dos Bandeirantes até chegar a uma praia deserta. Saltamos. Deixei acesos os faróis.

Nós não Lhe fizemos nada, ele disse.

Não fizeram? Só rindo. Senti o ódio inundando os meus ouvidos, minhas mãos, minha boca, meu corpo todo, um gosto de vinagre e lágrima.

Ela está grávida, ele disse apontando a mulher, vai ser o nosso primeiro filho.

Olhei a barriga da mulher esguia e decidi ser misericordioso e disse, puf, em cima de onde achava que era o umbigo dela, desencarnei logo o feto. A mulher caiu emborcada. Encostei o revólver na têmpora dela e fiz ali um buraco de mina.

O homem assistiu a tudo sem dizer, uma palavra, a carteira de dinheiro na mão estendida. Peguei a carteira da mão dele e joguei pro ar e quando ela veio caindo dei-lhe  um bico; de canhota, jogando a carteira longe.

Amarrei as mãos dele atrás das costas com uma corda que eu levava. Depois amarrei os pés.

Ajoelha, eu disse.

Ele ajoelhou.

Os faróis do carro iluminavam o seu corpo. Ajoelhei-me ao seu lado, tirei a gravata borboleta, dobrei o colarinho, deixando seu pescoço à mostra.

Curva a cabeça, mandei.

Ele curvou. Levantei alto o facão, seguro nas duas mãos; vi as estrelas no céu, a noite imensa, o firmamento infinito e desci o facão, estrela de aço, com toda minha força, bem no meio do pescoço dele.

A cabeça não caiu e ele tentou levantar-se, se debatendo como se fosse uma galinha tonta nas mãos de uma cozinheira incompetente. Dei-lhe outro golpe e mais outro e outro e a cabeça não rolava. Ele tinha desmaiado ou morrido com a porra da cabeça presa no pescoço. Botei o corpo sobre o pára­lama do carro. O pescoço ficou numa boa posição. Concentrei-me como um atleta que vai dar um salto mortal. Dessa vez, enquanto o facão fazia seu curto percurso mutilante zunindo fendendo o ar, eu sabia que ia conseguir o que queria. Brock! a cabeça saiu rolando pela areia. Ergui alto o alfanje e recitei: Salve o Cobrador! Dei um grito alto que não era nenhuma palavra, era um uivo comprido e forte, para que todos os bichos tremessem e saíssem da frente. Onde eu passo o asfalto derrete.

* * *
Uma caixa preta debaixo do braço. Falo com a língua presa que sou o bombeiro que vai fazer o serviço no aparta­mento duscenthos e um. O porteiro acha graça na minha língua presa e me manda subir. Começo do último andar. Sou o bombeiro (língua normal agora) vim fazer o serviço. Pela abertura, dois olhos: ninguém chamou bombeiro não. Desço para o sétimo, a mesma coisa. Só vou ter sorte no primeiro andar.

A empregada me abriu a porta e gritou lá para dentro, é o bombeiro. Surgiu uma moça de camisola, um vidro de esmalte de unhas na mão, bonita, uns vinte e cinco anos.

Deve haver um engano, ela disse, nós não precisamos de bombeiro.

Tirei o Cobra de dentro da caixa. Precisa sim, é bom ficarem quietas senão mato as duas. Tem mais alguém em casa? O marido estava trabalhando e o menino no colégio. Amarrei a empregada, fechei sua boca com esparadrapo. Levei a dona pro quarto.

Tira a roupa.

Não vou tirar a roupa, ela disse, a cabeça erguida. Estão me devendo xarope, meia, cinema, filé mignon e buceta, anda logo. Dei-lhe um murro na cabeça. Ela caiu na cama, uma marca vermelha na cara. Não tiro. Arranquei a camisola, a calcinha. Ela estava sem sutiã. Abri-lhe as pernas. Coloquei os meus joelhos sobre as suas coxas. Ela tinha uma pentelheira basta e negra. Ficou quieta, com olhos fechados. Entrar naquela floresta escura não foi fácil, a buceta era apertada e seca. Curvei-me, abri a vagina e cuspi lá dentro, grossas cusparadas. Mesmo assim não foi fácil, sentia o meu pau esfolando. Deu um gemido quando enfiei o cacete com toda força até o fim. Enquanto enfiava e tirava o pau eu lambia os peitos dela, a orelha, o pescoço, passava o dedo de leve no seu cu, alisava sua bunda. Meu pau começou a ficar lubrifi­cado pelos sucos da sua vagina, agora morna e viscosa.

Como já não tinha medo de mim, ou porque tinha medo de mim, gozou primeiro do que eu. Com o resto da porra que saía do meu pau fiz um círculo em volta do umbigo dela.

Vê se não abre mais a porta pro bombeiro, eu disse, antes de ir embora.

***
Saio do sobrado da rua Visconde de Maranguape. Uma panela em cada molar cheio de cera do Dr. Lustosa/ mastigar com os dentes da frente/ punheta pra foto de revista/ livros roubados./ Vou para a praia.

Duas mulheres estão conversando na areia; uma tem o corpo queimado de sol, um lenço na cabeça; a outra é clara, deve ir pouco à praia; as duas têm o corpo muito bonito; a bunda da clara é a bunda mais bonita entre todas que já vi.

Sento perto, e fico olhando. Elas percebem meu interesse e começam logo a se mexer, dizer coisas com o corpo, fazer movimentos aliciantes com os rabos. Na praia somos todos iguais, nós os fodidos e eles. Até que somos melhores pois não temos aquela barriga grande e a bunda mole dos para­sitas. Eu quero aquela mulher branca! Ela inclusive está interessada em mim, me lança olhares. Elas riem, riem, dentantes. Se despedem e a branca vai andando na direção de Ipanema, a água molhando os seus pés. Me aproximo e vou andando junto, sem saber o que dizer

Sou uma pessoa tímida, tenho levado tanta porrada na vida, e o cabelo dela é fino e tratado, o seu tórax é esbelto, os seios pequenos, as coxas são sólidas e redondas e musculosas e a bunda é feita de dois hemisférios rijos. Corpo de bailarina.
Você estuda balé?

Estudei, ela diz. Sorri para mim. Como é que alguém pode ter boca tão bonita? Tenho vontade de lamber dente por dente da sua boca. Você mora por aqui?, ela pergunta. Moro, minto. Ela me mostra um prédio na praia, todo de mármore.

* * *
De volta à rua Visconde de Maranguape. Faço hora para ir na casa da moça branca. Chama-se Ana. Gosto de Ana, palindrômico. Afio o facão com uma pedra especial, o pescoço daquele janota era muito duro. Os jornais abriram muito espaço para a morte do casal que eu justicei na Barra. A moça era filha de um desses putos que enriquecem em Sergipe ou Piauí, roubando os paus-de-araras, e depois vêm para o Rio, e os filhos de cabeça chata já não têm mais sotaque, pintam o cabelo de louro e dizem que são descendentes de holandeses.

Os colunistas sociais estavam consternados. Os granfas que eu despachei estavam com viagem marcada para Paris. Não há mais segurança nas ruas, dizia a manchete de um jornal. Só rindo. Joguei uma cueca pro alto e tentei cortá-la com o facão, como o Saladino fazia (com um lenço de seda) no cinema.

Não se fazem mais cimitarras como antigamente/ Eu sou uma hecatombe/ Não foi nem Deus nem o Diabo/ Que me fez um vingador/ Fui eu mesmo/ Eu sou o Homem Pênis/ Eu sou o Cobrador./

Vou no quarto onde Dona Clotilde está deitada há três anos. Dona Clotilde é dona do sobrado.

Quer que eu passe o escovão na sala?, pergunto.

Não meu filho, só queria que você me desse a injeção de trinevral antes de sair.

Fervo a seringa, preparo a injeção. A bunda de Dona Clotilde é seca como uma folha velha e amassada de papel de arroz.

Você caiu do céu, meu filho, foi Deus que te mandou, ela diz.

Dona Clotilde não tem nada, podia levantar e ir comprar coisas no supermercado. A doença dela está na cabeça. E depois de três anos deitada, só se levanta para fazer pipi e cocô, ela não deve mesmo ter forças.

Qualquer dia dou-lhe um tiro na nuca.

* * *
Quando satisfaço meu ódio sou possuído por uma sensação de vitória, de euforia que me dá vontade de dançar — dou pequenos uivos, grunhidos, sons inarticulados, mais próximos da música do que da poesia, e meus pés deslizam pelo chão, meu corpo se move num ritmo feito de gingas e saltos, como um selvagem, ou um macaco.

Quem quiser mandar em mim pode querer, mas vai morrer. Estou querendo muito matar um figurão desses que mostram na televisão a sua cara paternal de velhaco bem-sucedido, uma pessoa de sangue engrossado por caviares e champãs. Come caviar/ teu dia vai chegar./ Estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume. A moça do prédio de mármore? Entro e ela está me esperando, sentada na sala, quieta, imóvel, o cabelo muito preto, o  rosto branco, parece uma fotografia.

Vamos sair, eu digo para ela. Ela me pergunta se estou de carro. Digo que não tenho carro. Ela tem. Descemos pelo elevador de serviço e saímos na garagem, entramos num Puma conversível.

Depois de algum tempo pergunto se posso dirigir e trocamos de lugar. Petrópolis está bem?, pergunto. Subimos a serra sem dizer uma palavra, ela me olhando. Quando chega­mos a Petrópolis ela pede que eu pare num restaurante. Digo que não tenho dinheiro nem fome, mas ela tem as duas coisas, come vorazmente como se a qualquer momento fossem levar o prato embora. Na mesa ao lado um grupo de jovens bebendo e falando alto, jovens executivos subindo na sexta-­feira e bebendo antes de encontrar a madame toda enfeitada para jogar biriba ou falar da vida alheia enquanto traçam queijos e vinhos. Odeio executivos. Ela acaba de comer. E agora? Agora vamos voltar, eu digo, e descemos a serra, eu dirigindo como um raio, ela me olhando. Minha vida não tem sentido, já pensei em me matar, ela diz. Paro na rua Visconde de Maranguape. É aqui que você mora? Saio sem dizer nada. Ela sai atrás: vou te ver de novo? Entro e enquanto vou subindo as escadas ouço o barulho do carro partindo.

* * *
Top Executive Club. Você merece o melhor relax, feito de carinho e compreensão. Nossas massagistas são completas. Elegância e discrição.

Fica quieto senão chumbo a sua barriga executiva.

Ele tem o ar petulante e ao mesmo tempo ordinário do ambicioso ascendente egresso do interior, deslumbrado de coluna social, comprista, eleitor da Arena, católico, cursilhista, patriota, mordomista e bocalivrista, os filhos estudando na PUC, a mulher transando decoração de interiores e sócia de butique.

Como é executivo, a massagista te tocou punheta ou chupou teu pau?

Você é homem, sabe como é, entende essas coisas, ele disse. Papo de executivo com chofer de táxi ou ascensorista. De Botucatu para a Diretoria, acha que já enfrentou todas as situações de crise.

Não sou homem porra nenhuma, digo suavemente, sou o Cobrador.

Sou o Cobrador!, grito.

Ele começa a ficar da cor da roupa. Pensa que sou maluco e maluco ele ainda não enfrentou no seu maldito escritório refrigerado.

Vamos para sua casa, eu digo.

Eu não moro aqui no Rio, moro em São Paulo, ele diz. Perdeu a coragem, mas não a esperteza. E o carro?, pergunto. Carro, que carro? Este carro, com a chapa do Rio? Tenho mulher e três filhos, ele desconversa. Que é isso? Uma desculpa, senha, habeas-corpus, salvo-conduto? Mando parar o carro. Puf, puf, puf, um tiro para cada filho, no peito. O da mulher na cabeça, puf.

* * *
Para esquecer a moça que mora no edifício de mármore vou jogar futebol no aterro. Três horas seguidas, minhas per­nas todas escalavradas das porradas que levei, o dedão do pé direito inchado, talvez quebrado. Sento suado ao lado do campo, junto de um crioulo lendo O Dia. A manchete me interessa, peço o jornal emprestado, o cara diz se tu quer ler o jornal por que não compra? Não me chateio, o crioulo tem poucos dentes, dois ou três, tortos e escuros. Digo, tá, não vamos brigar por isso. Compro dois cachorros-quentes e duas cocas e dou metade pra ele e ele me dá o jornal. A manchete diz: Polícia à procura do louco da Magnum. Devolvo o jornal pro crioulo. Ele não aceita, ri para mim enquanto mastiga com os dentes da frente, ou melhor com as gengivas da frente que de tanto uso estão afiadas como navalhas. Notícia do jornal: Um grupo de grã-finos da zona sul em grandes preparativos para o tradicional Baile de Natal — Primeiro Grito de Carnaval. O baile começa no dia vinte e quatro e termina no dia primeiro do Ano Novo; vêm fazendeiros da Argentina, herdeiros da Alemanha, artistas americanos, executivos japoneses, o parasitismo internacional. O Natal virou mesmo uma festa. Bebida, folia, orgia, vadiagem.

O Primeiro Grito de Carnaval. Só rindo. Esses caras são engraçados.

Um maluco pulou da ponte Rio-Niterói e boiou doze horas até que uma lancha do Salvamar o encontrou. Não pegou nem resfriado.

Um incêndio num asilo matou quarenta velhos, as famílias celebraram.

* * *
Acabo de dar a injeção de trinevral em Dona Clotilde quando tocam a campainha. Nunca tocam a campainha do sobrado. Eu faço as compras, arrumo a casa. Dona Clotilde não tem parentes. Olho da sacada. É Ana Palindrômica.

Conversamos na rua. Você está fugindo de mim?, ela pergunta. Mais ou menos, digo. Vou com ela pro sobrado. Dona Clotilde, estou com uma moça aqui, posso levar pro quarto? Meu filho, a casa é sua, faça o que quiser, só quero ver a moça.

Ficamos em pé ao lado da cama. Dona Clotilde olha para Ana um tempo enorme. Seus olhos se enchem de lágrimas. Eu rezava todas as noites, ela soluça, todas as noites para você encontrar uma moça como essa. Ela ergue os braços magros cobertos de finas pelancas para o alto, junta as mãos e diz, oh meu Deus, como vos agradeço!

Estamos no meu quarto, em pé, sobrancelha com sobrancelha, como no poema, e tiro a roupa dela e ela a minha e o corpo dela é tão lindo que sinto um aperto na garganta, lágrimas no meu rosto, olhos ardendo, minhas mãos tremem e agora estamos deitados, um no outro, entrançados, gemendo, e mais, e mais, sem parar, ela grita; a boca aberta, os dentes brancos como de um elefante jovem, ai, ai, adoro a tua obsessão!, ela grita, água e sal e porra jorram de nossos corpos, sem parar.

Agora, muito tempo depois, deitados olhando um para o outro hipnotizados até que anoitece e nossos rostos brilham no escuro e o perfume do corpo dela traspassa as paredes do quarto.

Ana acordou primeiro do que eu e a luz está acesa. Você só tem livros de poesia? E estas armas todas, pra quê? Ela pega a Magnum no armário, carne branca e aço negro, aponta pra mim. Sento na cama.

Quer atirar? pode atirar, a velha não vai ouvir. Mais para cima um pouco. Com a ponta do dedo suspendo o cano até a altura da minha testa. Aqui não dói.

Você já matou alguém? Ana aponta a arma pra minha testa.

Já.

Foi bom?

Foi.

Como?

Um alívio.

Como nós dois na cama?

Não, não, outra coisa. O outro lado disso.

Eu não tenho medo de você, Ana diz.

Nem eu de você. Eu te amo.

Conversamos até amanhecer. Sinto uma espécie de febre. Faço café pra Dona Clotilde e levo pra ela na cama. Vou sair com Ana, digo. Deus ouviu minhas preces, diz a velha entre goles.

* * *
Hoje é dia vinte e quatro de dezembro, dia do Baile de Natal ou Primeiro Grito de Carnaval. Ana Palindrômica saiu de casa e está morando comigo. Meu ódio agora é diferente. Tenho uma missão. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei. Ana me ajudou a ver. Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo. Ana me ensinou a usar explosivos e acho que já estou preparado para essa mudança de escala. Matar um por um é coisa mística e disso eu me libertei. No Baile de Natal mataremos convencionalmente os que pudermos. Será o meu último gesto romântico inconseqüente. Escolhemos para iniciar a nova fase os compristas nojentos de um supermercado da zona sul. Serão mor­tos por uma bomba de alto poder explosivo. Adeus, meu facão, adeus meu punhal, meu rifle, meu Colt Cobra, adeus minha Magnum, hoje será o último dia em que vocês serão usados. Beijo o meu facão. Explodirei as pessoas, adquirirei prestigio; não serei apenas o louco da Magnum. Também não sairei mais pelo parque do Flamengo olhando as árvores; os troncos, a raiz, as folhas, a sombra, escolhendo a árvore que eu queria ter, que eu sempre quis ter, num pedaço de chão de terra batida. Eu as vi crescer no parque e me alegrava quando chovia e a terra se empapava de água, as folhas lavadas de chuva, o vento balançando os galhos, enquanto os carros dos canalhas passavam velozmente sem que eles olhas­sem para os lados. Já não perco meu tempo com sonhos.

O mundo inteiro saberá quem é você, quem somos nós, diz Ana.

Notícia: O Governador vai se fantasiar de Papai Noel. Notícia: menos festejos e mais meditação, vamos purificar o coração. Notícia: Não faltará cerveja. Não faltarão perus. Notícia: Os festejos natalinos causarão este ano mais vítimas de trânsito e de agressões do que nos anos anteriores. Policia e hospitais preparam-se para as comemorações de Natal. O Cardeal na televisão: a festa de Natal está deturpada, o seu sentido não é este, essa história de Pagai Noel é uma invenção infeliz. O Cardeal afirma que Papai Noel é um palhaço fictício.

Véspera de Natal é um bom dia para essa gente pagar o que deve, diz Ana. O Papai Noel do baile eu mesmo quero matar com o facão, digo.

Leio para Ana o que escrevi, nosso manifesto de Natal, para os jornais. Nada de sair matando a esmo, sem objetivo definido. Eu não sabia o que queria, não buscava um resultado prático, meu ódio estava sendo desperdiçado. Eu estava certo nos meus impulsos, meu erro era não saber quem era o inimigo e por que era inimigo. Agora eu sei, Ana me ensinou. E o meu exemplo deve ser seguido por outros, muitos outros, só assim mudaremos o mundo. É a síntese do nosso manifesto.

Ponho as armas numa mala. Ana atira tão bem quanto eu, só não sabe manejar o facão, mas essa arma agora é obsoleta. Damos até logo à Dona Clotilde. Botamos a mala no carro. Vamos ao Baile de Natal. Não faltará cerveja, nem perus. Nem sangue. Fecha-se um ciclo da minha vida e abre-se outro.


                                                      Análise do Conto:

“O Cobrador” é um conto sobre um homem que sai pelas ruas cobrando das pessoas o que lhe devem. Rubem Fonseca (o autor) detalha os pensamentos de um assassino que pratica seus atos por sentir que a sociedade lhe deve algo. Como uma maneira de demonstrar o seu ódio, o cobrador descobre o sentido de sua vida, passando a matar seus devedores.
Uma característica é a manipulação das pessoas, que está presente em toda a obra. O narrador não quer mais ser manipulado e pagar pelas coisas de que precisa. Por isso, opõe-se a sociedade e deixa transparecer a luta entre as classes sociais. Enquanto o rico domina pelo dinheiro, o cobrador, representante dos excluídos sociais, domina pela violência.
O personagem faz uso da violência para alcançar seu objetivo, visto que a rejeição social é a motivadora de seus ataques contra a sociedade. Essa sua maneira de agir leva o cobrador a uma sensação de vazio, que ele busca suprir com a luta para que o ser humano venha a ter um pouco mais de dignidade ou pelo menos, seja respeitado em sua diferença.
O narrador é o representante dos marginalizados. Embora criminoso, resolve inverter o jogo e justiçar os detentores do dinheiro e do poder, culpando-os pela sua marginalidade. Ele não tem um comportamento fixo e unificado (personagem redondo: inusitado, imprevisível). É um homem que, em momentos de ódio, agride, estupra e mata pessoas, sentindo-se aliviado e de bem consigo, mesmo quando realiza atos cruéis e violentos.
Em outros momentos o narrador mostra-se diferente, pois cuida de Dona Clotilde, proprietária da casa que mora. E ainda, em situações que se espera uma atitude agressiva, simplesmente releva, por se tratar de alguém sem condições financeiras. Ele possui também uma outra característica que desestrutura qualquer tentativa de estabelecer um padrão de comportamento: sua paixão por Ana, uma mulher integrante do meio social que o Cobrador odeia.


A narração é feita na primeira pessoa pelo personagem principal. E a linguagem predominante é a linguagem falada pelas classes mais baixas, o que dá um caráter real a narrativa. 

Conto retirado do site: http://www.releituras.com/rfonseca_cobrador.asp